Família síria separada pela guerra se reencontra no Brasil

18/03/2015
RIO DE JANEIRO, 16 de março de 2015 (ACNUR) – Com o conflito na Síria completando quatro anos este mês, a
história de quatro irmãos refugiados no Brasil chama atenção por ser, ao mesmo tempo, tão comum quanto extraordinária. Como muitas, foi marcada pelo medo, pela separação e pela saudade. Como poucas, porém, terminou com um reencontro e um final feliz.
 
A guerra separou Armin (24 anos), Abd Alrahman (22), Ebraheem (20) e Youness (5) por cerca de três anos. No final de 2012, quando o conflito já afetava gravemente a população civil, Armin e Ebraheem decidiram atravessar a fronteira em busca de melhores condições de vida no Líbano. Eles fugiam do destino reservado aos rapazes de sua idade: a guerra nas fileiras do Exército. Abd Alrahman, por sua vez, já havia sido incorporado às forças armadas, o que motivou a permanência de seus pais, Adeeb e Hanaa, além do pequeno Youness.
 
Em Beirute, os dois irmãos que haviam conseguido escapar enfrentaram novas dificuldades e, após um ano, decidiram procurar embaixadas de diversos países para pedir proteção. Receberam resposta negativa em todas. Então, um amigo lhes recomendou procurar a embaixada do Brasil. Por meio de uma Resolução Normativa (#17), o país passou a desburocratizar a emissão de vistos para cidadãos sírios e de outras nacionalidades afetadas pelo conflito que estivessem dispostos a solicitar o refúgio. E assim os dois irmãos conseguiram sair do Oriente Médio.
 
Armin e Ebraheem chegaram a São Paulo em dezembro de 2013 e, logo em seguida, mudaram-se para Brasília. Com o apoio da comunidade árabe local, começaram a procurar emprego e a planejar a vinda do resto da família.
 
Ebraheem recebeu uma oportunidade para trabalhar como garçom, mas Armin, que tinha anos de experiência em hotelaria, não foi tão feliz e decidiu se mudar para o Rio de Janeiro. Na Cidade Maravilhosa, sua sorte começou a mudar. Ele procurou a Cáritas RJ, instituição parceira do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), e por meio dela conheceu o padre Alex, da Paróquia de São João Batista, que lhe ofereceu um trabalho de vendedor na livraria da igreja.
 
Além disso, Armin ficou amigo de um suíço que se comoveu com sua história e lhe ofereceu um apartamento para abrigar temporariamente a família. A essa altura, seus pais e seu irmão caçula já haviam conseguido se transferir para Brasília. Em outubro de 2014, todos voltaram a viver juntos no Rio.
© ACNUR/ D.Felix © ACNUR/ D.Felix
Armin prepara os salgados que hoje são a fonte de renda da família.
Exceto Abd Alrahman, que continuava na Síria. Pouco depois, no entanto, ele conseguiu deixar o Exército e atravessar a fronteira com a Turquia. Depois do trâmite com a embaixada brasileira em Ankara, o reencontro da família aconteceu em 29 de dezembro de 2014 quando, finalmente, os pais e irmãos de Abd Alrahman foram buscá-lo no aeroporto.
Com efeito, o Brasil tem se tornado um destino cada vez mais comum para os refugiados sírios. No ano passado, mais de 1.300 pediram refúgio no país e os sírios se tornaram o maior grupo entre os refugiados que vivem atualmente no Brasil, cerca de 1.700.
 
Vida nova no Brasil - Superada a saudade, Adeeb, Hanaa e seus quatros filhos vivem agora uma nova fase. Sabendo do apreço dos brasileiros pela comida árabe, eles começaram um pequeno negócio gastronômico, preparando em casa delícias tradicionais como quibes, esfihas, falafel, homus e doces sírios, que são vendidos na porta da igreja do padre Alex. Para iniciar a produção, contaram com a ajuda não só do sacerdote como de vários brasileiros, que contribuíram com a compra de máquinas caseiras importantes para o preparo dos salgados. Com preços baixos para atrair a clientela, eles já começam a colher frutos.
 
"Fazemos as receitas originais, como são na Síria", explica Armin. "Trituramos o trigo para preparar nossa própria farinha de quibe e ainda colocamos nozes, o que as pessoas aqui não costumam fazer. Os brasileiros compram porque sabem que são ingredientes originais e frescos. Eles gostam, voltam e trazem os amigos", conta Armin.
 
A família prepara os quitutes à noite e vende durante o dia. Na sala de casa, todos ajudam de alguma forma. Até o pequeno Youness, que já frequenta uma escola particular. Mas eles querem ainda mais gente com a mão na massa. Sonham em trazer os primos para o Brasil e, assim, fazer o negócio crescer, como já aconteceu com tantas outras famílias árabes no Rio de Janeiro de outros tempos, principalmente entre os libaneses.
 
Com o conflito na Síria entrando em seu quinto ano, e restando apenas o reconhecimento de Abd Alrahman como refugiado junto ao governo brasileiro, a família já não pensa em voltar tão cedo. "Acho que esta guerra vai durar mais uns dez anos", opina Ebraheem. "Com tantos grupos envolvidos, o país já não pode voltar a ser como antes."
 
Por Diogo Felix, no Rio de Janeiro


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