O Milagroso Alcorão (parte 4 de 11): A Preservação Detalhada do Alcorão

 

Eu estava dolorosamente consciente de muito da história da Bíblia e esse era um dos problemas principais que eu tinha com o Cristianismo.[1]  Eu perguntei a pastores sobre essa questão e a maioria deles na época, isso foi antes dos fundamentalistas se tornarem predominantes, foram muito abertos sobre isso e admitiram que havia problemas com a autenticidade histórica da Bíblia.  Ao mesmo tempo, entretanto, a maioria deles proclamava que os “ensinamentos” tinham sido preservados embora os detalhes possam não ter sido.  Em outras palavras, a Bíblia claramente não era a palavra de Deus; eles alegavam que os escritores bíblicos foram “inspirados” por Deus.  Isso é o máximo que podiam alegar, embora até isso eles não pudessem provar.  Isso me parecia uma fé cega porque se você não sabe se os detalhes foram preservados, como pode estar tão certo de que os ensinamentos principais foram realmente preservados?  Na realidade, nós não sabemos quem eram Mateus, Marcos, Lucas e João e nem por que exatamente seus nomes foram atrelados àqueles famosos Evangelhos.
 
À luz disso, eu encontrei Jeffrey, enquanto ele tentava provar que havia algumas dificuldades menores com o Alcorão, demonstrando que a compilação do Alcorão desde os seus anos iniciais era conhecida em detalhes, já que a maior parte de seu trabalho se relacionava com a época dos Companheiros do Profeta.   Eu estava muito impressionado e seu suposto ataque ao Alcorão simplesmente, como eu já aludi antes, me fez continuar em meu estudo do Alcorão.  (Claro, muito depois eu li respostas aos argumentos de Jeffrey, refutando totalmente suas alegações de que o Alcorão não havia sido preservado.)
 
A Promessa do Alcorão de que Seria Preservado
 
Em qualquer caso, chamou a minha atenção o que o Alcorão diz dele mesmo:
 
“Nós revelamos a Mensagem e Somos seu preservador.” (Alcorão 15:9)
 
Era interessante para mim porque dentro do Alcorão existe uma referência clara a como os povos anteriores fracassaram em preservar completamente a mensagem que receberam.[2]  Portanto, à luz do que o Alcorão estava dizendo sobre as revelações anteriores, era uma afirmação muito audaciosa.  E, incidentalmente, pode ser considerada uma das profecias do Alcorão – vindo de uma perspectiva judaico-cristã, profecias eram importantes para mim.  Se elas não acontecessem seriam muito prejudiciais aos meus olhos, ao passo que se acontecessem eu consideraria um bom sinal.
 
Mais uma vez, a história do Islã apresenta um cenário diferente das revelações anteriores.  O Profeta Muhammad, que Deus o exalte, viveu há apenas 1.400 anos.  Ele é definitivamente o mais “histórico” dos vários profetas.  Portanto, a história do Alcorão é conhecida e documentada.
 
O Alcorão foi preservado com cuidado meticuloso.  Ele se descreve como uma “leitura” (Alcorão) e como um livro (kitaab).  De fato, foi através de ambos os meios que o Alcorão foi meticulosamente preservado.
 
Durante a vida do Profeta, o Profeta tinha escribas específicos cujo trabalho era registrar a revelação quando ele a recebia.  O Alcorão não foi revelado de uma única vez.  Foi registrado por um período de vinte e três anos.  Durante aquela época, a revelação podia vir ao Profeta a qualquer momento.  Quando ela vinha, era reconhecida pelos sinais físicos sobre o Profeta (um ponto que levou alguns a alegarem que ele simplesmente era epilético).  Ele então chamava seus escribas e dizia a eles o que havia sido revelado e exatamente onde a nova passagem se encaixava em relação ao que já havia sido revelado por Deus.
 
O Alcorão, que não é um livro grande, também foi preservado na memória assim como na forma escrita desde a época do Profeta Muhammad.  Muitos dos Companheiros do Profeta tinham memorizado o Alcorão inteiro e, temendo o que havia acontecido com as comunidades das religiões anteriores, eles adotaram as medidas necessárias para protegê-lo de qualquer forma de adulteração.   O Alcorão continua a ser memorizado hoje – outro aspecto surpreendente do Alcorão.  De fato, Deus diz sobre o Alcorão:
 
“Em verdade, fizemos o Alcorão fácil de compreender e lembrar...” (Alcorão 54:17)
 
 Até hoje, milhares de muçulmanos sabem o Alcorão de cor.  Se Fahrenheit 451de Ray Bradbury se tornasse uma realidade hoje e todos os livros fossem reduzidos a cinzas, o Alcorão sobreviveria.  Os muçulmanos seriam capazes de reescrever todo o Alcorão de memória.
 
Logo após a morte do Profeta o Alcorão foi todo compilado e pouco depois cópias oficiais foram enviadas a terras distantes, para assegurar que o texto ficasse puro.  Até hoje, pode-se viajar para qualquer parte do mundo, pegar uma cópia do Alcorão e constatar que ela é a mesma em todo o mundo.[3]
 
Até o idioma do Alcorão, que é essencial para manter o entendimento verdadeiro do texto, foi preservado.[4]  O mesmo não pode ser dito dos profetas anteriores como Moisés e Jesus, cujos hebraico e aramaico não existem mais.
 
Como mencionado anteriormente, todo cuidado foi tomado para assegurar que qualquer coisa que não pertencesse à revelação direta de Deus - inclusive as próprias afirmações do Profeta - fosse mantida fora do Alcorão.  Apenas as palavras que o Profeta recebeu como revelação e informou a seus seguidores fizeram parte do Alcorão.  Conseqüentemente, o Alcorão é completamente diferente da Bíblia, que inclui histórias sobre os profetas, comentários sobre suas vidas e ensinamentos, cartas e escritos de não-profetas e assim por diante.  Nenhuma interpolação e adição humana pode ser encontrada no Alcorão.
 
Assim, o Alcorão originalmente me impressionou de duas formas: primeiro, claramente se proclamou ser a palavra de Deus que não estava entrelaçada com palavras de humanos.  Segundo, foi minuciosamente preservado desde a época de sua revelação.  Esses dois pontos significavam que o Alcorão atendia meus parâmetros lógicos para religião e revelação.  Eu estava pronto para prosseguir em meus estudos e analisar seus ensinamentos.
 
A propósito, pode-se com toda razão perguntar por que Deus permitiu que suas revelações anteriores fossem distorcidas e não preservadas.  Pode-se de fato pensar sobre muitas razões importantes por trás disso.  Primeiro, como está claro em suas próprias escrituras, os profetas anteriores, como Moisés e Jesus, não foram enviados para toda a humanidade.  Suas mensagens eram claramente para a Tribo de Israel e para suas épocas em particular.  De fato, Deus nos ensina que todos os povos tiveram um mensageiro que lhes foi enviado e cujos propósitos eram limitados.  O Profeta Muhammad e, conseqüentemente, sua revelação, é para toda a humanidade desde a sua época até o Dia do Juízo.  Segundo, se suas revelações fossem preservadas, seus seguidores poderiam usar isso como justificativa para continuarem a seguir seus profetas e se recusarem a seguir o Profeta Muhammad.  Uma vez que está muito claro através de muitos meios, como evidência histórica, declarações contraditórias dentro do texto e assim por diante, que suas escrituras não foram preservadas em seus detalhes e que eles não podem alegar seguir o que é a religião pura de Deus - sem mistura com interpolação humana – eles não têm justificativa válida para não abandonarem suas revelações não-preservadas por uma revelação verdadeira, completa e exata de Deus encontrada no Alcorão.
 
Footnotes:
[1]  Infelizmente o espaço não permite uma discussão detalhada desse tópico, embora ele seja extremamente importante para minha comparação entre a Bíblia e o Alcorão. Em nome da brevidade, as conclusões de um autor com relação ao Velho Testamento serão apresentadas. Após uma longa discussão da história do Torá, Dirks conclui,
O Torá recebido não é um documento único, unitário. É uma compilação de colagens...com formação de camadas adicionais...Embora Moisés, a pessoa que recebeu a revelação original, a quem o Torá supostamente representa, não viveu depois do século 13 AC e provavelmente viveu no século 15 AC, o Torá recebido data de uma época muito posterior.  O trecho identificável mais antigo do Torá recebido, ou seja, J, não pode ser datado de antes do século 10 AC...Além disso, esses trechos diferentes não foram introduzidos no Torá recebido até aproximadamente 400 AC, o que seria aproximadamente 1.000 anos após a vida de Moisés.  Ainda mais, o Torá recebido nunca foi totalmente padronizado, com pelo menos quatro textos diferentes existindo no primeiro século DC, aproximadamente 1.500 anos após a vida de Moisés. Adicionalmente, se adotarmos o texto masorético como o texto mais “oficial” do Torá recebido, então o manuscrito mais antigo existente data de cerca de 895 DC, que é aproximadamente 2.300 anos após a vida de Moisés.  Em resumo, embora o Torá recebido possa conter algumas porções do Torá original, a origem do Torá recebido é interrompida, vastamente desconhecida e não pode de forma alguma ser traçada até Moisés. [Jerald F. Dirks, The Cross & the Crescent  (A Cruz & O Crescente, em tradução livre) (Beltsville, MD: Amana Publications, 2001), p. 53. Outras discussões importantes da autenticidade do Velho Testamento podem ser encontradas em  Maurice Bucaille, The Bible, the Quran and Science(A Bíblia, o Alcorão e a Ciência, em tradução livre)  (Indianápolis, IN: American Trust Publications, 1978), pp. 1-43; M. M. Al-Azami, The History of the Quranic Text from Revelation to Compilation: A Comparative Study with the Old and New Testaments (A História do Texto Corânico da Revelação à Compilação: Um Estudo Comparativo com o Velho e o Novo Testamentos, em tradução livre)  (Leicester, Reino Unido: UK Islamic Academy, 2003), pp. 211-263.
Embora Jesus tenha vindo muitos séculos depois de Moisés, a revelação que ele recebeu não teve melhor sorte. Um grupo de eruditos cristãos conhecidos como Fellows of the Jesus Seminar (Membros do Seminário de Jesus) tentaram determinar quais ditos atribuídos a Jesus podem ser considerados autênticos. Eles afirmaram: “82% das palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos não foram de fato ditas por ele.” [Robert W. Funk, Roy W. Hoover and the Jesus Seminar, The Five Gospels: What did Jesus Really Say? (Os Cinco Evangelhos: O Que Jesus Realmente Disse?, em tradução livre) (Nova Iorque: MacMillan Publishing Company, 1993), p. 5.] Ao descrever a história dos evangelhos, ele escreveu: “A verdade é que a história dos evangelhos gregos, de sua criação no primeiro século até a descoberta de suas primeiras cópias no início do terceiro, permanece um território amplamente desconhecido e, conseqüentemente, não mapeado. [Funk, et al., p. 9.] O trabalho de Bart Ehrman, The Orthodox Corruption of Scripture (A Corrupção Ortodoxa da Escritura, em tradução livre) identificou como a escritura foi mudada ao longo do tempo. Ele afirma sua tese, que ele prova com detalhes, na abertura: “A minha tese pode ser declarada de forma simples: escribas ocasionalmente alteraram as palavras de seus textos sagrados para fazê-los mais patentemente ortodoxos e prevenir o mau uso por cristãos que abraçavam opiniões aberrantes.” [Bart D. Ehrman, The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament (A Corrupção Ortodoxa da Escritura: O Efeito das Controvérsias Cristológicas Primitivas sobre o Texto do Novo Testamento, em tradução livre)(Nova Iorque: Oxford University Press, 1993), p. xi.] É como colocar a carroça antes dos bois: as crenças devem ser baseadas nos textos transmitidos mas os textos não devem ser alterados para se adequar às crenças.
Notem que essas duas primeiras premissas referentes à uma religião embasada estão relacionadas de maneira próxima. Há um reconhecimento geral da parte de muitos cristãos que seus textos não foram preservados de forma exata. Isso implica em distorção e interpolação humanas. Uma vez que o texto foi distorcido de alguma forma, isso os leva a acreditar que devem “corrigir” o texto Conseqüentemente, eles se dão autoridade suprema para decidir como a religião deve ser. Dessa forma, em outubro de 2005 os bispos da Inglaterra puderam aparecer com um documento afirmando que existem muitos aspectos da Bíblia que não devem ser considerados verdadeiros. Eles prosseguem delineando o que é verdadeiro e o que não é verdadeiro na Bíblia. Se os textos originais tivessem sido preservados minuciosamente, não haveria necessidade de qualquer correção ou autoridade nova para afirmar o que é aceitável e o que é recusável.
[2] O próprio Alcorão se refere à distorção dos livros primitivos pelos povos anteriores e também às suas tentativas de ocultar parte da revelação. Veja, por exemplo, Alcorão 5:14-15 e 4:46.
[3] Uma história detalhada do Alcorão e sua preservação pode ser encontrada em M. M. Al-Azami, The History of the Quranic Text from Revelation to Compilation: A Comparative Study with the Old and New Testaments (A História do Texto Corânico da Revelação à Compilação: Um Estudo Comparativo com o Velho e o Novo Testamentos, em tradução livre)(Leicester, Reino Unido: UK Islamic Academy, 2003), pp. 1-208
[4] As diferenças entre o árabe clássico (o idioma do Alcorão) e o árabe moderno padrão são insignificantes e sem importância. Quem não está familiarizado com o árabe pode folhear o livro a seguir, que aponta quando essas diferenças ocorrem: Elsaid Badawi, M. G. Carter e Adrian Gully, Modern Written Arabic: A Comprehensive Grammar (Árabe Escrito Moderno: Uma Gramática Abrangente, em tradução livre)  (Londres: Routledge, 2004)


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